domingo, 5 de abril de 2009

Ambos - Lantes











Foto do http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/foto/0,,18923425-EX,00.jpg

19:00 horas de mais uma terça-feira na qual eu me aproximava da Rodoviária para o ritual de partidas rumo à cidade de Serra Talhada. Meu celular de forma inquieta começa a tocar o hino do Sport, na mesma hora com essa nova relação toque-música-pessoas sabia que algum amigo de Pernambuco estava ligando.

Atendi o celular e Gustavo começou a dar umas coordenadas para que eu pegasse um ônibus que não fosse pelo Derby, mas pela Caxangá ou direto para o TIP (para quem não conhece a sigla, Terminal Integrado de Passageiros, porque Recife não pode ter simplesmente uma Rodoviária ou pelo fato de ser algo tão distante da cidade que justifica um nome diferenciado, enfim...).

Narrava Gustavo que uma revolução (exageros à parte) tinha começado em Recife e naquele momento existia em uma das principais vias da cidade e nas suas vias secundárias, um engarrafamento que estava durando praticamente a tarde toda e entrando pela noite.

O motivo central era o fechamento da ponte que liga Recife aos Bairros do Pina e Boa Viagem, também uma das principais rotas para o Aeroporto, Setúbal, Piedade e Candeias (para quem vem do Centro), quem tinha fechado a ponte? Os ambulantes ou mercadores informais da praia de Boa Viagem.

Marx errou de novo, gargalhei ao telefone...Também erramos em não apostar no potencial reinvindicatório desse grupo social, afinal de contas geralmente as demandas que causam pânico na classe média e nos ricos, são proporcionadas por grupos ligados ao movimento no campo (MST e outros) e na cidade especificamente os sem-teto (perdeu o hífen ou não?Bem isso é outra questão...rs).

Fiquei imaginando como seria o pensamento naquele momento de alguém engarrafado no carro por 02, 03 ou 04 horas? Ar-condicionado ligado, celular com a bateria quase no fim, aquele mar de automóveis e pensamento não conformado com a causa do atraso no jantar ou ida no shopping center.

De alguma forma ele pensava, como encarar no próximo final de semana Dona Maria do caldinho, Seu João do Bronzeador, Dona Clara da Cerveja e do Caranguejo (esse aí perdeu o trema, eu acho...rs),pessoas que pareciam tão dóceis, de uma hora para outra causavam um dano tão grande a cidade que poderiam ser comparados com os "marginais" dos sem-terra (além de não sair a Reforma Agrária será que perderão o hífen?Ou na realidade nunca tiveram o hífen?).

Essas figuras bloquearam a ida para casa das famílias de Boa Viagem,o desavisado com seu pensamento sequer lembra que essas pessoas na informalidade durante décadas proporcionaram conforto,pois acordam geralmente às 03:00 ou 04:00 da matina para preparar as carroças, arrastam o peso em carros velhos ou nos braços, cruzando diariamente as pontes, ruas de uma cidade que aos poucos acorda, perto de 17:00 ou 18:00 horas com os serviços prestados retornam para casa, onde o dia ainda não acabou, outros que vendem picolés, bronzeadores, protetores,ostras, camarão, cd´s e outras coisas também tem suas ritualidades que não são vistas.

No mesmo instante o mesmo cara engarrafado, iria romper minha narrativa com um brado: Pera ía!De forma abusivo, afinal de contas uma cerva custando R$5,00 e a cadeira R$3,00 é um assalto! A falta de regulação faz com que a gente não saiba quem é gente boa ou ruim...Calma lá - respondo- e porque você não levou durante anos suas cervejas, cadeiras e afins para praia morando a poucas quadras dela? Eu não sou farofeiro diria a figura, moro em Boa Viagem.

Cheguei em Recife por volta das 21:00 horas, não tinha mais engarrafados(estão proibidas na praia as cervejas em garrafa, ainda tomei algumas em Janeiro e poderei dizer para meus descentendes: Aqui vendia até cerveja em garrafa, e elas faziam montes que às vezes a maré teimava em levar, corríamos procurando, contando e reclamendo dos cascos, era isso antes de chegar o shopping praia ltda com Mc Donalds e afins, era assim o final de semana).

Gutavo me contou que após o cerco da polícia militar e da guarda municipal eles foram "controlados" e agora em comissão aguardavam uma reunião com secretários, Marx acertou...O trânsito com sua forma caótica de fluir em Recife tomou seu prumo, o cara engarrafado perdeu o Jornal Nacional e o começo da novela...

De toda forma não deixei durante a viagem de criar alguns rascunhos de idéias soltas que agora compartilho ou será que já compartilhei?

Ambulantes em ambulâncias.
Ambulantes em riste na ponte.
Ambulantes pernambucanos perambulando pelo pina.
Ambulantes confiantes, confinando e confinados.
Ambulantes e o tráfego.
Ambulantes e o tráfico.
Ambulantes da boniteza protegida.
Ambulantes da livre concorrência.
Ambulantes ritmados.
Ambulantes afastados da formalidade.
Ambulantes informais sindicalizados.
Ambulantes disfarçados.
Ambulantes enfezados.
Ambulantes com fé e famintos.
Ambulantes em suas barricadas vendendo e comprando jornais.
Ambulantes, caminhantes, transeuntes, pedestres, carroceiros, mercadores, burgos da idade média na praia da pós-modernidade, na onda da ativação, atravessando o grito e o choque de um atraso repentino dissipado na memória automobilística da cidade moralmente consternada do povo invísivel que teve seu dia de cidadão.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O efeito da vida









Convoca a não durabilidade da vida para momentos que sentimos a froxuidão da tênue relação entre o nascimento e o falecimento.
As convenções sociais estabelecidas a partir de relações sanguíneas ou não, demonstram a fragilidade do caminho cotidiano.
Nascer é ser conduzido por situações, relações, emoções que não estão estabelecidas através de um desejo pessoal.
Falecer é um não ser conduzido...É um não ser que transborda significados para aqueles que ainda são,relaciona fatos, lembranças, emoções, desejos, frustrações, falas, olhares e também a falta disto tudo.
O efeito desses encontros e desencontros são vidas que circundam diariamente pessoas que transitam alheias aos que todos sabem, através de um jargão popular tão dito, quanto não percebido, até que nos aproximam dela: "da vida, só temos certeza, a morte".
Apesar dessa certeza, e de todas as dúvidas em relação a continuidade da vida,o falecimento ou nascimento de alguém próximo nos prosta diante da nossa humanidade. Toda engrenagem aflora, de forma espiritual,ritualística, religiosa, material, burocrática, emocional, racional e irracional, configura um pequeno segundo de repercussões profundas.
São bons/ruins dias com ventos suaves, listras circulando os pensamentos, expressões de novos momentos.Enquanto envelheço rapidamente, outros partem para outras dimensões, mas principalmente ficam na mente.
Essa semana, completo mais um ano, ciclo, momento ou alento, pois será o primeiro que quem me viu nascer tão de perto, e observou minhas transformações compreensíveis ou não, estará apenas na minha mente. Minha avó, fotografata enquanto partia o bolo dos 77 anos, e eu nascido em 77 manuseava a máquina para um registro que encontra-se impossível amanhã. Dia 19.03, não é meu aniversário, mas o sétimo dia do falecimento dela, o horário será às 19:30, quantos números e quantas aproximações...Efeitos da vida, de quem vive e sabe que um dia não estará mais por aqui.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Tempo sob exame...














Tem um tempo que é intervalo do tempo total (futebolear),
Tem um tempo inventado para durar mais que o necessário.
Tem um tempo que se perdeu nas feições maquiadas,
Tem um tempo para os comerciais de sabonete.
Tem um tempo que se pode esticar o prumo (redear),
Tem um tempo possivelmente administrado.
Tem um tempo que se quer dominar (domingar),
Tem um tempo parado.
Tem um tempo que o sorriso sustenta um samba,
Tem um tempo para a propaganda oficial.
Tem um tempo redigido por algum fato não nacional.
Tem tempo que chove nas profundezas,
Tem tempo que rói conceitos desavisados....Tem tempo (tempero)...