sábado, 13 de março de 2010

Breves comentários sobre a questão de Gênero





Sirlei – “não entendo porque fizeram isso comigo!”
“Uma prostituta identificada como Ângela prestou depoimento, na noite desta quarta-feira, na delegacia e também acusou os cinco jovens que bateram na doméstica. Ela disse que estava num ponto de ônibus anterior ao de Sirlei, na madrugada de sábado. Ela reconheceu Rubens Arruda como seu principal agressor, mas não os outros porque ficou de costas depois que começou a apanhar e saiu correndo. Além de levar vários socos e pontapés, teve uma pochete roubada.”
Jovens dizem que espacaram a doméstica porque confundiram com uma prostituta.
fonte:http://oglobo.globo.com/rio/mat/2007/06/28/296560373.asp

Breve comentários sobre a questão de Gênero

O diálogo necessário para superação dos preconceitos em face das relações de gênero não passa apenas por vias legislativas e dos demais órgãos do Estado, ela é também realizada no cotidiano, nas relações interpessoais, nas escolas, nas ruas e nas conversas familiares.Sirley questiona, porque fizeram isso com ela? Questionamos, como está esse caso atualmente no Judicário?

Essa rápida homenagem ao dia internacional das mulheres, re-afirma nossa consciência histórica, política e social em face das desigualdades de gênero no Brasil, porém busca rapidamente demonstrar como todo avanço datado na cronologia histórica deve ser estudada para que na nossa arrogância inconsciente,possamos entender que sempre existe : “o silêncio que precede o esporro!”.

Relacionar a idéia inicial na qual o direito, lei e sistema de proteção aos direitos das mulheres no Brasil são imprescindíveis, coaduna-se com a perspectiva de que a legislação internacional dos direitos humanos, fortificam os direitos feministas, principalmente se aliados a pressão dos movimentos sociais que travam essa batalha, não pode ser considerado apenas espaço restrito às mulheres, a compreensão amplificada do fenômeno nos coloca perante a necessidade de articular diversos segmentos da sociedade em torno dessa pauta centenária.

Entre as instituições do Estado com maior responsabilidade em relação aos direitos feministas, temos o Poder Judiciário no senso comum visto enquanto acesso direito à justiça, obviamente a estrutura oficial estatal para solução de conflitos através de um aparato de procedimentos, textos jurisprudenciais, leis, magistrados, serventuários e outras nuances que compõe essa via institucional de acesso a garantias de direitos.

A perspectiva de concretização de Justiça, porém passa por outros largos conceitos do que meramente um formalismo abstrato ou tecnicismo refinado, questões que não serão resolvidas nesse breve comentário nos levam a questionar: O que é Direito? O que é Lei? Como concretizar um Sistema de Proteção aos direitos das mulheres em uma sociedade secularmente machista e opressora em relação a qualquer tipo de diferença, seja ela social, racial, econômica, sexual, política e religiosa?

Tais questões são respondidas no cotidiano, educação, elevação do senso comum ao bom senso, respeito ao próximo, alteridade, libertação, emancipação e nesse momento histórico político das mulheres no Brasil e no mundo, a força coercitiva do Estado, que refratando as políticas e formulações teóricas e práticas dos movimentos sociais/academia ligados ao tema externaliza à toda sociedade uma força normativa de conduta.

Porém como sinalizei anteriormente, tal força legal, jurídica ou moral, não está apenas vinculada a aparente solução do problema da discriminação, preconceito e superação das desigualdades, por exemplo, como posso dizer para alguém pessoa que ela está discriminando outra, quando sequer boa parte da população não sabe qual é o conceito de discriminação?

Discriminação : Refutação dos objetivos de outras pessoas em razão de fatores como cultura, religião, raça, etnia, nacionalidade, língua, classe, sexo, ou orientação sexual.A discriminação é considerada preconceituosa se gerar uma ação em que a pessoa ou grupo lesado seja considerado inferior, essa forma de discriminação é crime no Brasil.

Abrimos então outras portas, como trabalhar tal conceito quando aspectos culturais de formação da nossa sociedade e do Estado transcendem uma mera discrição conceitual?

Ora, como diz uma amiga minha ligada ao Movimento Negro, quer saber o quem é negro no Brasil, basta acompanhar uma patrulha da polícia, com certeza eles sabem diferenciar quem é negro ou não neste país.

Em relação as mulheres essa relação também perpassa essa questão objetiva e também um desafio subjetivo, além do fato cotidiano da discriminação, é necessário que a mulher sinta-se “empoderada” para reivindicar sua condição de mulher enquanto conhecedora dos seus direitos e de todo processo histórico em torno das relações de gênero.

Sempre “brinco” com alunos/as, tem professores/as de filosofia, direito, artes, sociologia, história que se esforçam teoricamente para explicar o que é dignidade humana, tratados são escritos, palestras proferidas, o conceito é fluido e escorre para todos os lados, porém o conceito de dignidade humana para mim está presente no sentimento em relação a falta gritante dessa dignidade, basta perguntar/olhar/compreender uma mulher vítima de violência que qualquer conceito teórico recolhe-se a sua insignificância diante da materialidade factual.

Outras formas de trazer o debate é a apresentação de alguns dados, por exemplo: “ Segundo as Nações Unidas, os 70% de pobres do mundo são mulheres, que são vítimas de discriminação e ainda têm limitações com relação ao acesso à terra, ao crédito, à educação , à uma adequada capacitação tecnológica, além de receberem menos do que os homens para tarefas idênticas; são as últimas a serem contratadas e as primeiras a perderem seus empregos. As meninas e mulheres possuem menos de 1% das riquezas do planeta. Realizam 70% das horas de trabalho e recebem somente 1% das riquezas do planeta. Realizam 70% das horas de trabalho e recebem somente 10% dos rendimentos. Quatro milhões de mulheres e meninas são vendidas a cada ano para fins de prostituição, escravidão doméstica ou casamento forçado, 2/3 das crianças que não vão à escola são meninas e 2/3 dos analfabetos são mulheres.” Relatório da Rede de Justiça Social 2002. p.249 Macha Mundial da Mulheres – “ Alternativas para um outro mundo” . Texto debatido durante a realização do Fórum Social Mundial 2002.

No plano nacional reafirmar a Cronologia Feminista além de estarrecer algumas pessoas com as barbáries legislativas de alguns momentos históricos, nos projetam para o entendimento que o desenvolvimento crítico não começou agora ou ontem, milhares de históricas contribuições das mulheres ( principalmente negras) trouxeram ao nosso rompimento com o ideal e conforto das nossas posições sociais. Essa é minha homenagem rápida ao dia, mês, ano, décadas e séculos que irão seguir das mulheres, pelas mulheres.

Por fim, aponto pessoalmente que já fui machista, homofóbico, preconceitouso em relação a classe social e economica, talvez nunca fui racista, por sempre ter sido alvo de "brincadeiras" por ser o "moreno" da turma de classe média, porém devo ter feito "brincadeiras" de cunho racial ou reprodução do senso comum em relação aos povos pré-colombianos, e tais questões/posição não me torna pior ou melhor do que ninguém, apenas comprova o fato que não bastam leis, é necessário muito diálogo para superar essas pré-concepções que nos são postas enquanto verdade absoluta, seja no almoço de domingo ou na rua e também no Judiciário (como está o caso Sirley?), o processo de formação da consciÊncia é dolorido, cansativo e contínuo, não ser torna algo apenas para aparentar uma posição "politicamente correta", mas um descorntinamento das nossas próprias limitações...Tudo é impulso para novas revelações.

1879 - O governo brasileiro abriu as instituições de ensino superior do país às mulheres; mas as jovens que seguiam esse caminho eram sujeitas a pressões e à desaprovação social.

1917 - As mulheres ganharam o direito de ingressar no serviço público.

1919 - A Conferência do Conselho Feminino da OIT aprovou o salário igual para trabalho igual, destacando -se a participação de duas brasileiras no evento: Bertha Lutz e Olga de Paiva Meira.

1927 - Na cidade de Mossoró (RN), Celina Guimarães torna -se a primeira eleitora brasileira.

1928 - Alzira Soriano é eleita a primeira prefeita do Brasil e da América Latina, no município de Lages (RN).

1932 - As mulheres ganham o direito ao voto em todo o Brasil com a promulgação do novo Código Eleitoral.

1962 -Suprimiu -se do Código Civil o Código da Mulher Casada, que a considerava relativamente incapaz, comparada a menores de idade.

1964 - O Conselho Nacional de Desportos - CND proíbe a prática do futebol feminino no Brasil. A decisão só foi revogada em 1981.

1966 - O Congresso Nacional incluiu o sistema de cotas na legislação eleitoral, obrigando os partidos políticos a inscreverem, no mínimo, 20% de mulheres em suas chapas proporcionais.

1977 - É aprovada a lei do divórcio.

1979 - Eunice Michillis torna -se a primeira senadora brasileira, defendendo, sobretudo, a cidadania feminina.

1980 - Acontece o Encontro Feminista de Valinhos, São Paulo, que recomenda a criação de centros de autodefesa, para coibir a violência contra a mulher. Surge o lema: "Quem ama não mata, não humilha, não maltrata". Ganha fôlego o SOS -Mulher, que se traduziria, em seguida, na criação de delegacias especiais de atendimento à mulher.

1980 - Instituído, pela Lei nº 6.971, de 9 de junho de 1980, o Dia Nacional da Mulher comemorado em 30 de abril.

1985 - A Câmara dos Deputados aprova o Projeto de Lei nº 7353, que criou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

1985 - As mulheres conquistam a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Nesse ano também surge a primeira Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher (DEAM), em São Paulo.

1986 - Presença importante de 26 mulheres, eleitas deputadas constituintes, que atuaram na defesa dos direitos reprodutivos e no combate à violência contra as mulheres. A atuação ficou conhecida como "lobby do batom".

1990 - Júnia Marise é a primeira senadora da República eleita.

1994 - Benedita da Silva elegeu -se a primeira senadora negra. É considerada também a mulher negra que atingiu os mais altos cargos na história política do País.
1995 - É aprovada a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher, conhecida como a Convenção de Belém do Pará.

1996 - O Congresso Nacional incluiu o sistema de cotas, na Legislação Eleitoral, obrigando os partidos políticos a inscreverem, no mínimo, 20% de mulheres em suas chapas proporcionais (Lei nº 9.100/95 - § 3º, art. 11), e a Lei 9504/97 eleva para 30%.

2002 - O novo Código Civil acabou com o direito do homem de mover ação para anular o casamento se descobrir que a mulher não era virgem, termo presente no antigo Código Civil, de 1916.

2004 - Extinção da expressão "mulher honesta" no Código Penal, em vigor desde 1940. Os artigos 205, 206 e 207 do código exigiam que a mulher deveria provar ser honesta, ou seja, virgem para poder processar seu agressor.

2003 - A Secretaria dos Direitos da Mulher é transformada na Secretaria de Políticas para as Mulheres, status de ministério.

2004 - Instituído por lei como o Ano Nacional da Mulher.

2006 – Lei Maria da Penha. LEI Nº 11.340, DE 7 DE AGOSTO DE 2006 Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.

2010 – 100 anos de luta pelos direitos das mulheres.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Férias e Prévias: O roteiro de uma folga transpirada.




Foto retirada de algum local que não lembro no momento.









Descanso e folia. Atordoa a mente. Agita o corpo. Propõe desconforto e asfixia. Liberta o passo e a nova rotina. Ser composto de contradições aglutinando o folião e a interpretação das fantasias. Dorme lentamente. Acorda em outra monotonia. Acredita que tudo cria desespero e felicidade. Corre, levita, sacode e vomita toda a falta de verdade. É mentira!


Aponta o bloco. É o próprio enredo e nostalgia. Micróbio no frevo. O jovem no elevador escuta algo que não sei de onde vem e se serve para carnaval. Olha que conheço essa cara, você chegou de cima. É prévia. Parece que não.


Ô ô ô saudade.Saudade tão grande.Saudade que eu sinto.Do Clube das Pás, do Vassouras.Passistas traçando tesouras.Nas ruas repletas de lá.Batidas de bombos.São maracatus retardados.Chegando à cidade, cansados,Com seus estandartes no ar.Que adianta se o Recife está longe.E a saudade é tão grande.Que eu até me embaraço.Parece que eu vejo.Valfrido Cebola no passo.Haroldo Fatias, Colaço Recife está perto de mim.O Frevo número 01.


Casa para ler, ver TV, regorjear e não perceber. Acusa, rompe, compra e perde. Chegaram as contas, as crianças e os motivos. Revolta e conforta. Fatos, normas, pedágios do conhecimento são os livros contorcidos na estante. Desliga o monitor e liga o raio que contorce as frivolidades. São férias com prévias.
Muriçocas e Cafuçu. Não entendo o que vem depois. O bocado de carnaval ficando nas praças, praias e nas músicas que contam histórias em uma avenida. Pipoca meu bem, pipoca. Planejado e não cumprido. Foi por uma causa boa. Foi para salvar uma lassidão. É para continuar começando 2010 sem perder de vista o riso e a paixão.


Por fim...Renova, resgata, relincha, recife, reporta e reconforta. Abafamento do apartamento que transpira sem dormir enquanto o roteiro corre lento dentro de uma imensidão de passista e espectadores. São as férias e as prévias. Escritas contra o tédio e a rouquidão dos que não encontram desejos e não se embriagam de multidões em suas multidimensões.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Nota Pública : Um ano da morte de Manoel Mattos











Fernando Matos passou esse vídeo/link da última campanha de Manoel Mattos, para quem não o conheceu, a imagem e sua fala diz quais os desafios e esperança desse grande cara em uma cidade pequena, para quem o conheceu, fica díficil não lembrar das suas expressões, palavras e atitudes, díficil escrever algo nesse momento, as subjetividades e afinidades afloram e rompem qualquer pesrpecitiva racional... "Impossível fazer um poema / neste momento. / Não, minha filha, eu não sou a música / _ sou o instrumento. / Sou, talvez, dessas máscaras ocas / num arruinado monumento: / empresto palavras loucas / à voz dispersa do vento..."Mário Quintana.

http://www.youtube.com/watch?v=ypT4exXo2Jg

Singela homenagem.

Eduardo.

NOTA PÚBLICA: Um ano da morte de Manoel Mattos

- 29 de janeiro de 2010 -


http://global.org.br/programas/um-ano-da-morte-de-manoel-mattos/

Não era segredo pra ninguém. Nas pequenas cidades da fronteira entre Pernambuco e Paraíba, todos sabiam que Manoel Mattos, o advogado que desafiou os grupos de extermínio da região, estava marcado para morrer. Junto com outros que ousaram denunciar as frequentes execuções praticadas por pistoleiros e agentes públicos, Mattos por diversas vezes procurou autoridades e organizações da sociedade civil para alertar: “se nada for feito, eles vão me matar”. Não faltou aviso.

Em 2002, a Justiça Global e a Dignitatis Assessoria Técnica Popular encaminharam à Organização dos Estados Americanos (OEA) um pedido de medidas cautelares para a garantia da vida e da integridade física de Manoel Mattos e de outras quatro pessoas. A intenção era chamar a atenção do Estado brasileiro para as ameaças que vinham sofrendo e forçar não apenas que lhes fosse assegurada a proteção policial, mas que se iniciasse um trabalho eficaz de investigação a fim de desarticular os grupos de extermínio. A OEA prontamente concedeu as medidas cautelares, mas de nada adiantou: a falta de apuração e proteção possibilitou que, das cinco pessoas beneficiadas com as cautelares, duas tenham sido mortas (o primeiro foi Luiz Tomé da Silva, conhecido como “Lula”, um ex-pistoleiro que passou a colaborar com as investigações da CPI dos Grupos de Extermínio da Câmara, em 2003).

No último dia 24, o assassinato do advogado Manoel Bezerra de Mattos, natural de Itambé (PE), completou um ano. Quatro dias após o crime, no dia 28 de janeiro de 2009, a Justiça Global e a Dignitatis solicitaram a instauração de Incidente de Deslocamento de Competência (IDC), medida judicial que transfere para a esfera federal a competência para investigar e responsabilizar judicialmente. O pedido foi reforçado pelo Ministério da Justiça, pelo Conselho Estadual de Direitos Humanos de PE e pelos governadores de Pernambuco e Paraíba.

A documentação encaminhada à Procuradoria Geral da República (PGR) solicitava a federalização não apenas do assassinato de Manoel Mattos, como também da ação dos grupos de extermino que na última década já executaram mais de 200 pessoas na região. As organizações da sociedade civil deixaram claro: se dependermos da atuação das polícias estaduais e da justiça local, dificilmente se chegará aos mandantes do crime e aos líderes do grupo. E isso, até hoje, não é segredo pra ninguém.

No entanto, apesar do parecer favorável da PGR e da urgência para que o IDC seja instaurado, o pedido de federalização do caso continua emperrado no Superior Tribunal de Justiça desde junho de 2009. No estado da Paraíba, cinco pessoas chegaram a ser denunciadas pela morte de Manoel Mattos, mas, apesar das provas colhidas, o processo ainda encontra-se em fase de ouvir testemunhas.

Como era de se esperar, notícias dão conta que os grupos de extermínio continuam articulados na zona limítrofe de PE e PB. Os mesmos políticos, magistrados e delegados de polícia que Mattos denunciou – e que foram citados nominalmente no relatório final da CPI dos grupos de extermínio, em 2005 – continuam dominando o aparato estatal da região. Há apenas duas semanas, a mãe de Manoel Mattos, Nair Ávila, que de forma corajosa tem buscado justiça para seu filho, foi perseguida quando saía de uma audiência judicial em Itambé.

O assassinato de Manoel Mattos é um triste retrato de um Brasil que ainda é governado livremente pelo crime organizado. Apesar de todos os avisos, de todas as denúncias, de todas as medidas, não conseguimos evitar sua morte. Cabe às autoridades, agora, impedir que aqueles que mataram Manoel Mattos tenham o terreno livre para continuarem a praticar seus crimes.

JUSTIÇA GLOBAL

DIGNITATIS – Assessoria Técnica Popular

MNDH/PE – Movimento Nacional de Direitos Humanos de Pernambuco